A MULHER NA MAÇONARIA (DISCRIMINAÇÃO?)

16/06/2013 16:37

No desenvolvimento das sociedades, a história sempre mostrou a discriminação da mulher, principalmente em relação à educação.  Aos homens era atribuída a condição de donos do saber. Às mulheres cabia o papel de subordinação ao poder masculino.

 

No século XVII-XVIII a imagem da mulher era a de um ser sem vontade própria.

 

No discurso de Rousseau * (GASPARI, 2003, p. 29) a educação feminina deveria ser restrita ao doméstico, não deveriam ir em busca do saber, contrário à sua natureza. Aquela sociedade exigia que as mulheres ocupassem apenas o papel de mães, guardiãs dos costumes, e dispostas a servir ao homem. A mulher era um ser destinado à procriação, ao lar e para agradar ao homem.

 

Rousseau preconizava a inferioridade feminina, com sua incapacidade de raciocinar como o homem. A falta de autodeterminação da mulher é da sua natureza intrínseca. Resta-lhe a fonte do poder da sedução.

 

No discurso de Kant ** (GASPARI, 2003, p. 31) o papel da mulher era viver para o homem.

 

Apesar de tudo, algumas mulheres, aproveitando a oportunidade da participação nos salões de festas, onde podiam estar próximas dos músicos, escritores, poetas e outros intelectuais, conseguiram firmar-se no terreno intelectual. Assim, mesmo envolvidas nas idéias preconceituosas de que a mulher não podia possuir ao mesmo tempo a beleza e a razão, aprimoram-se e adquirem conhecimentos desses contatos e da literatura.

 

As idéias dos filósofos mencionados, exatamente no “período das luzes”, é de triste constatar nos dias atuais.   Em seus imaginários não havia necessidade de conferir à mulher um status político, uma vez que apenas o homem era a causa final da mulher.

A discriminação é consolidada no papel da mulher frágil, emotiva, amorosa, incapaz, inferior.

 

Com esse cenário, nessa condição e com esses “atributos”, a mulher, comparada ao negro (escravo) e aos aleijados, tem o seu ingresso impedido na Maçonaria, através da compilação de várias práticas ditas tradicionais, as quais foram denominadas “landmarks” segundo Anderson (1723) um pastor presbiteriano “Ministro Cristão do Evangelho”.

 

A propósito, Christian Jacq (A Franco-Maçonaria — História e Iniciação, p. 15), afirma que dois homens representaram importante papel na elaboração das constituições surgidas em 1723: o pastor Jean Théophile Désaguliers e o pastor Anderson.

 

A polêmica ultrapassa os limites dos Landmarks. Sobre o assunto, diz Christian Jacq (ibidem, p. 16), “... predominam três teorias:

 

1- Anderson é o único autor;      

2- Désaguliers é o verdadeiro autor e Anderson o redator;

3- um comitê de quatorze maçons compilaram os princípios e Anderson os organizou".

 

Nicola Aslan menciona a posição de Virgílio A. Lasca, no seu trabalho “Princípios Fundamentales de la Orden e los verdaderos Landmarks”, que “não existe, entre os autores, unidade de critério para a seleção ou classificação do que eles estimam deverem ser considerados como Landmarks ou antigos limites. Estes foram estabelecidos recentemente, depois dos meados do século XIX, e são mais fruto da fantasia, pois os que deles se ocuparam enumeram-nos em classificações que variam de 3 até 54”.

 

Aslan (ibidem) transcreve uma relação de 15 listas de Landmarks conhecidas, elaborada por Virgílio A. Lasca, que entendemos oportuno citar:

 

• 3 para Alexander S. Bacon e Chetwode Crawley;
• 6 para a Grande Loja de Nova York, que toma por base os capítulos em que se dividem as Constituições de Anderson;
• 7 para Roscoe Pound, a Grande Loja da Virgínia, e o cubano Carlos F. Betancourt;
• 9 para J. G. Findel;
• 10 para a Grande Loja de New Jersey;
• 12 para A. S. Mac Bride;
• 15 para Jonh W. Simons e para a Grande Loja de Tennessee;
• 17 para Robert Morris;
• 19 para Luke A. Lockwood e a Grande Loja de Connecticut;
• 20 para a Grande Loja Ocidental de Colômbia, com sede em Cali;
• 25 para Albert G. Mackey e Çhalmers I. Paton e ainda a Grande Loja de Massachussets, a qual, embora só admitindo 8 Landmarks, estes são iguais àqueles enunciados por Mackey;
• 26 para a Grande Loja de Minnesota;
• 29 para Henrique Lecerff,
• 31 para o Dr. Oliver;
• 54 para H. G. Grant e para a Grande Loja de Kentucky.

 

A contundência de Aslan (op.cit. p.21) vai ainda mais longe, quando diz que mesmo Mackey “não conseguiu livrar-se da imaginária narração de Anderson. Acreditou, como acreditaram todos os seus contemporâneos, na grande antiguidade da Maçonaria, nas supostas Constituições de York do ano de 926 e em outros fatos cuja veracidade histórica, somente neste século, ficou estabelecida pelos historiadores modernos, que a negaram”

 

Há inúmeras discussões entre grupos de maçons. Segundo alguns, os landmarks devem sofrer modificações, adequando-se à nossa época. Uma das alterações propostas seria a admissão de mulheres na Ordem Maçônica. Entretanto, os defensores da sua imutabilidade, afirmam ser “cláusulas pétreas”, não passíveis de modificações, já que alterá-los significaria “romper a sintonia maçônica mundial”.

 

Não é estranho que mesmo Nietzsche, que no século XIX, considera a mulher como um “ser fracassado” atribui ao homem a responsabilidade de manter a mulher sob sua dependência e domínio.  ... “o homem tem de [...] conceber a mulher como “posse” a mantê-la sob sete chaves, como algo destinado a servir, e que só dessa forma se realiza.

Nietzsche vai mais além, definindo como de “cabeça oca” os homens que apóiam a emancipação feminina, ponto alto para a regressão da mulher e sua desfeminização.

 

Como a história é dinâmica, temos uma realidade atual em que a mulher exerce, com a máxima proficiência, todo e qualquer papel exercido pelo homem. Desde a Presidência da República em vários países, Juízas, Delegadas de Polícia, Escritoras, Filósofas, Cientistas Políticos, Pilotos de caça na Força Aérea à Mestre de Obras... com um detalhe que merece o maior destaque: Comprovadamente as mulheres, ocupando essas posições de destaque na sociedade, são consideradas mais responsáveis, eficientes e infinitamente menos corruptas do que os homens!

 

E agora? o que dizer? Onde jogar todo o “machismo” remanescente de três (3) séculos atrás?

 

Para manter a tradição do “avant-garde” Francês, o Grande Oriente da França Inicia mulheres desde 2010.

Temos notícias de que na Itália e Alemanha as mulheres entraram na Justiça denunciando o preconceito e exigindo a admissão na Maçonaria, o que foi concedido.

 

As perguntas que não querem calar são: Será necessária essa providência? Em pleno século XXI? Com a realidade gritando aos nossos ouvidos? Com uma evidência inquestionável ofuscando nossos olhos?

 

Nesse aspecto, exaltemos o papel da Ordem Maçônica Mista Le Droit Humain, na vanguarda Maçonaria a quase 130 anos, hoje em 72 países!

... “DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS:  1- A Ordem Maçônica Mista Internacional Le Droit Humain afirma a igualdade do homem e da mulher. Ao proclamar o direito Humano, pretende que eles cheguem a gozar, em todo o orbe e de forma semelhante, da justiça social em uma Humanidade organizada em sociedades livres e fraternas.  2- Constituída de Franco Maçons, homens e mulheres fraternalmente unidos, sem distinção de ordem racial, étnica, filosófica ou religiosa, a Ordem.”

 

E o que dizer dos nossos fundadores? Dá para imaginar a coragem de “romper” com os conceitos estabelecidos, pela “visão” que tiveram da Sociedade do futuro, em pleno século XIX?

O mundo Maçônico, de tantas conquistas, responsáveis pela luta a favor da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, está carente de homens com essa Grandeza...

 

Israel Denis, 33º

Presidente da Federação Brasileira Le Droit Humain

 

 

Jean-Jacques Rousseau -Genebra28 de Junho de 1712 — Ermenonville2 de Julho de 1778) foi um importante filósofo, teórico político, escritor e compositor autodidata suíço. É considerado um dos principais filósofos do iluminismo e um precursor do romantismo.

**Immanuel Kant (Königsberg22 de abril de 1724 — Königsberg, 12 de fevereiro de 1804) foi um filósofo prussiano, geralmente considerado como o último grande filósofo dos princípios da era moderna.

*** Friedrich Wilhelm Nietzsche (Röcken15 de Outubro de 1844 — Weimar25 de Agosto de 1900) foi um influente filósofo alemão do século XIX.

Fontes:

- livros e autores citados

- vários sites de pesquisa na internet